Me dê um conselho. O pedido é simples, mas tão simples que chega a confundir. Especialmente se for feito feito por uma caixa branca plantada no meio da rua.

Para o designer Daniel Motta, a esquisitice não foi exatamente um problema. Ao contrário, pode-se dizer que foi um incentivo. Munido da caixa, uma caneta e uma máquina fotográfica, ele saiu por diferentes pontos da cidade de São Paulo para ouvir – mais precisamente, ler – o que as pessoas tinham a dizer.

Conselho pra quem? Sobre o que? Sobre o que você quiser, pra quem você quiser. Pode ser pra sua amiga ou pro Franciney. Mas você não precisa escrever pra ninguém em especial. Pode aconselhar quem está pensando em usar uma frigideira nu, os nervosinhos, ou ainda aqueles que andam embolotando. O que importa é não se intimidar diante do pedido e colocar no papel o que der na cabeça.

A intervenção urbana de Daniel se traduz numa espécie de "polaroide urbano-sentimental" dos transeuntes das grandes cidades e analisar os recados em sua dimensão tipográfica é um dos aspectos mais intrigantes dessa experiência. Os conselhos amorosos, por exemplo, são geralmente escritos de forma terna, como a pessoa que encontrou o amor na forma de um cabeludo metaleiro e sugere que você se case com um, mas é perturbador notar um desespero contido na letra de quem escreve sobre suicídio. Dentro da urna foram depositados conselhos sobre situações que todos nós vivemos – mas talvez não contemos simplesmente porque não nos seja perguntado. Sorte a nossa que Daniel perguntou.

Em junho de 2012, Daniel lançou em livro uma compilação com alguns dos melhores conselhos recebidos durante o período da intervenção.